Assassinando nossos ancestrais – as árvores

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Quando criança, crescendo numa estação de controle do Serviço Florestal no alto das montanhas do estado de Oregon, acreditava que a tribo de árvores que nos cercavam eram vizinhos silenciosos que sustentavam o céu acima de nossas cabanas rústicas para nos proteger. Porque as árvores eram mais altas e mais velhas que as pessoas e porque todos nós — das cobras e esquilos às pessoas — éramos obviamente relacionados, presumi que as árvores eram nossas ancestrais. Elas estavam aqui antes de nós. Nós éramos seus filhos.

Os gigantescos pinheiros, apesar de sua profunda imobilidade, freqüentemente faziam barulho durante a noite, murmúrios e assobios suaves, que atravessavam as paredes da cabana feitas com seus parentes. No início, memorizei a floresta com as mãos, engatinhando em cima das agulhas dos pinheiros. Como uma cega lendo Braille, meus dedos gorduchos tateavam a casca das árvores, procurando a seiva endurecida. Eu mastigava a cheirosa goma, mais saborosa que qualquer insípida comida para bebê. O sabor da seiva de pinheiro despertou meu nariz e meu cérebro; eu franzia o rosto de alegria, o que me valeu o apelido de “roedora”.

Crianças pequenas não têm que ser humanas na floresta. Os adultos nos chamavam por nomes de animais ou vegetais, tais como “gambá” ou “cabeça-de-abóbora”. E as árvores não precisavam ser inanimadas ou lenha morta. Quarenta anos atrás, quando nasci naquela floresta do noroeste do Pacífico, as velhas árvores ainda eram abundantes. Quarenta anos atrás, meus ancestrais ainda velavam sobre mim, sobre todos nós.

Agosto passado, viajando de carro de Los Angeles para minha casa em Seattle, passei novamente através daquelas florestas. Durante as quatro horas de viagem entre o norte da Califórnia e Eugene, no Oregon, contamos 50 caminhões de transporte de madeira — aproximadamente um caminhão a cada quatro minutos. Muitos deles carregavam apenas uma ou duas árvores enormes. Não sei quando comecei a chorar. Talvez tenha sido quando ligamos para nosso amigo em sua cabana no rio Snake e ele nos disse que, todos os dias, do nascer ao pôr-do-sol, um caminhão de madeira passava a cada cinco minutos. “É como um cortejo fúnebre saindo da floresta”, disse meu amigo Joe.

À medida que dirigia através daquelas montanhas outrora luxuriantes, meus dedos ficavam brancos de raiva de tanto apertar a direção cada vez que um caminhão passava. Fiquei pensando nos lenhadores. Eles também haviam crescido na floresta, suas pequenas mãos também haviam aprendido que a casca das árvores é um tipo de pele. Nas famílias de lenhadores, há um amor simbiótico pelas árvores. Então, qual o motivo desta desesperada derrubada de seus próprios ancestrais?

Nossos ancestrais pagãos acreditavam que as árvores eram mais importantes que as pessoas, porque a floresta sobrevivia e contribuía por muitos anos para mais que uma vida humana. Cortar um carvalho sagrado significava a mais severa punição: o ofensor era aberto pelo umbigo, seus intestinos enrolados em volta do toco da árvore para que árvore e homem morressem juntos. Naquela época, reconhecíamos que nosso destino estava diretamente ligado à terra; as árvores eram sagradas.

Neste inverno, faz dois anos que meu avô morreu. Um fazendeiro das épocas difíceis e antigo xerife, vovô era superespecial para o bando de netos que se reunia na fazenda quase todos os verões. Falando em um dialeto que precisaria de tradução hoje, reclamava dos patifes e salafrários que precisava prender por crimes que iam desde contrabando até homicídio. Uma de minhas memórias mais antigas é estar jogando damas com um patife não muito perigoso na cadeia de vovô. Uma outra é de sacudir na sua caminhonete enquanto ele fazia campanha para reeleição, tocando a buzina e gritando em frente de cada bar clandestino: “Vou fechar vocês; vou fechar mais rápido que Jesus chegando!” Também lembro de vovô chorando por causa da morte de seu velho cão de caça. “É porque ele nunca mais vai andar do meu lado”, vovô explicou. Alguém lhe deu um filhote, mas vovô ficou ofendido. “Você não pode substituir um pelo outro. Aquele cão, ele cuidava de mim. Agora, desse filhote, eu tenho que cuidar.”

A primeira vez que vi toda minha família chorar junta foi no enterro de vovô. Sem nenhuma vergonha, mais ou menos trinta pessoas choravam numa pequena igreja da roça — era uma dor diferente do desespero que eu havia presenciado na morte de uma criança ou de um adulto mais jovem. No enterro do meu avô, todos, sem distinção de idade, choramos como crianças abandonadas. Quem contaria histórias do nosso povo? Quem nos daria a sabedoria de um velho sobrevivente? Nosso avô, esse muito amado ancião, não estava mais entre nós.

Quando voltei para casa, alguém me perguntou: “Quantos anos ele tinha?” Quando eu disse que oitenta e seis, a pessoa ficou visivelmente aliviada. Ela até encolheu os ombros: “Ah, bom.” Fiquei imaginando se ele ia sugerir que eu arranjasse um novo cão de caça. Numa sociedade pré-industrial ou agrária, a morte de um idoso era causa de grande tristeza e homenagem. Em nossa arrogância moderna, equacionamos valor com juventude.

Se meu avô fosse um daqueles velhos pinheiros, Douglas, que vi sendo retirados da floresta, será que ele seria realmente igualado a uma pequena árvore? Velhas árvores, como as pessoas, sobrevivem à luta na competição por luz ou por glória; elas devolvem às gerações mais oxigênio, mais histórias; são altas e enxergam longe o suficiente para ver o futuro, porque estão firmemente enraizadas no passado. Velhas árvores e pessoas oferecem nutrição; as mudas plantadas para substituí-las necessitam de nutrição. Recentemente, uma índia da tribo dos Nez Perce do Oregon me contou que, na tradição do seu povo, houve um tempo em que as árvores antigas eram tumbas vivas para as pessoas. Após a morte de um ancião da tribo, uma árvore era escavada o suficiente para conter o corpo em posição fetal. A casca, então, era colocada novamente para crescer sobre os ossos como um enxerto de pele. “As árvores antigas mantiveram nossos idosos durante milhares de anos”, ela disse suavemente. “Se você corta essas árvores, você perde seus próprios antepassados, todos os que vieram antes de você. Uma solidão insuportável.” Sem antepassados, nossa tribo logo estará perdida. Vamos esquecer quem somos e vagar como crianças perdidas, todos nós.

Sempre vou sentir falta de meu avô. Sempre terei saudades dos meus ancestrais, meu Povo de Pé: cuidaram de mim e até emprestaram sua pele para meu berço. Em um nível espiritual, nossas entranhas ainda estão enroladas em volta das árvores, como um cordão umbilical. Cada vez que uma grande árvore é cortada, nossa espécie também morre — solitária e sentindo falta daquilo que não reconhecemos como nós mesmos.

Para ler a matéria original, clique aqui

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© 2009 ATWA Brasil

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~ por ATWA Brasil em 06/10/2009.

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