Karma e o “desastre” no Rio de Janeiro

Ninguém gosta de morte. Não se trata de algo que, na maioria dos casos, é comemorado. Acontece que é comum em casos de mortes coletivas, como em um acidente aéreo ou no recente deslizamento de terras e inundações no Rio de Janeiro, classificar o acontecimento como “desastre” ou “fatalidade” e livrar a situação de uma relação de causa e efeito. Nessa vontade de proteger e inocentar vítimas, e de criar um círculo de emoção entre o público geral, nem sempre honesto por parte da mídia, que se preocupa somente em audiência para a venda de comerciais, a causa dos acontecimentos permanece esquecida. Mas ironicamente, é precisamente o erro de não avaliar a causa que garante a repetição do evento no futuro. Choros e lágrimas não desativam a lei da causa e efeito. Emoções de lado, é hora de cada um se responsabilizar pela sua parcela de culpa pelo que aconteceu na última semana no estado do Rio de Janeiro.

A maioria das pessoas que morreram como resultado dos deslizamentos no Rio de Janeiro eram pessoas simples. Algumas trabalhadoras, outras não, como em qualquer outro lugar. Da mesma forma, pode-se dizer que algumas sabiam, e outras não, sobre a questão de ATWA – o sistema de suporte de vida na Terra, a guerra contra a poluição, a proteção do ar, das árvores, da água e dos animais. Mudança climática, aquecimento global, desmatamento, extinção, poluição, etc. De qualquer maneira, muita gente morreu sem saber porque morreu. Muitas vidas foram perdidas sem nem sequer ter noção sobre a lei de causa e efeito que desencadeou nos deslizamentos e nas inundações. Seria isso inocência? Difícil julgar o morto, mas a realidade permanece.

Pode ser que os mortos não sabiam disso, e pelo que parece, o foco da mídia continua a ser o sensacionalismo, a contagem de corpos e as imagens da destruição, mas a história que aconteceu é resultado de uma lei de causa e efeito muito simples: o desvio de um córrego artificial que tem causado a erosão gradual da encosta que aquelas pessoas vivem. Simples assim. Essa foi a causa do deslizamento e das inundações, e não as chuvas torrenciais.

Sim, as autoridades do estado do Rio de Janeiro se esconderam atrás de comunicar “as piores chuvas nas últimas quatro décadas”. Isso é normal – é o caminho mais simples, menos racional, mas mais prático. Mas sinceramente, as chuvas então são o problema? Ou as obras dos homens, das ações dos homens, a ignorância do homem? “Desastre natural” é o termo que eles gostam de usar. De “natural” na história, só mesmo o homem, a chuva, e a terra. O resto, é invenção humana – e o que desabou, foi a invenção humana, como resultado de erros humanos. Culpar a chuva é o mesmo que culpar a bala de um revolver quando alguém é assassinado a tiros – e isso, também, acontece muito no Rio de Janeiro.

As chuvas foram mesmo violentas – quanto a isso, não há discussão. Alguns acadêmicos do campo da oceanografia classificaram o ocorrido como resultado de “mudanças climáticas globais que têm efeitos locais”. Em outras palavras, as chuvas fortes do Rio de Janeiro como conseqüência da ação global do homem – aquelas pessoas que morreram, mortas pela ação do coletivo dos homens que habitam esse planeta. Essas alterações climáticas incluem, entre outras coisas, o aumento da atividade desde o final de 2009 do fenômeno do El Niño, caracterizado por um aumento anormal da temperatura das águas superficiais dos oceanos. “No Rio de Janeiro, estamos sofrendo um fenômeno climático com uma causa global. A temperatura mais elevada do mar leva a uma maior evaporação da água, que por sua vez, produz mais chuva”, explica o oceanógrafo David Zee, professor da Universidade Gama Filho e UERJ. Sendo assim, o que aconteceu é muito mais do que uma “fatalidade” ou “desastre”. Classificar assim é, no mínimo, ingênuo. Pior do que isso: garante a possibilidade de acontecer novamente.

Como se pode ver, existe uma pluralidade de ações humanas que desencadearam os eventos da semana passada. Contribuindo para o problema está a degradação ambiental causada pelo crescimento populacional da cidade. O cimento é agora muito mais difundido do que a cobertura florestal original, que ajudaria a reter água nas colinas e montanhas. Agora, a água simplesmente flui através disso tudo, indo de encontro às moradias e em direção á cidade lá embaixo. Deficiências crônicas nos sistemas de drenagem da cidade e o acúmulo de lixo tão comum nas encostas, obviamente, não fazem nada para ajudar a situação.

O desvio do córrego na área de Guararapes, que costumava correr e providenciar todas as necessidades de água potável das comunidades da região, provocou essa situação que, ironicamente, está sendo somente explicada como ação das “fortes chuvas”. E se existe uma lição importante para se tomar, é ouvir um dos moradores de Guararapes, Waldemar Santana, que perdeu sua casa com o deslizamento: “Não podemos culpar a natureza, porque ela sabe o que está fazendo. Mas podemos culpar os seres humanos”. Não foi o Waldemar quem desviou o córrego. O córrego foi desviado para um desenvolvimento imobiliário privado no pico do morro. Desde então, a água vazando tem sido gradualmente filtrada, colaborando para a erosão do solo. Sendo assim, é fácil entender porque a culpa cái sobre a chuva: alguém vai assumir o karma das 223 vidas que foram perdidas (até o presente momento)?

Falando em karma, essa é uma lei que não falha. Ação e reação; causa e efeito. Não existe matemática para isso. Não existem mentes do dinheiro que consigam fugir disso. Nada acontece que não seja contabilizado. E é um ciclo – um dia um sobe, outro dia ele desce. O homem, o coletivo dos seres humanos, é responsável pelas alterações climáticas que resultou no aumento de chuvas. Alguns homens, individualmente, são responsáveis pela destruição da vegetação nativa do Rio de Janeiro, pelo lixo nas ruas e encostas, pelo desvio de córregos, etc. Esse karma é deles, e eles lidarão com isso – ou alguém levará a realidade a eles antes. A única lei é ATWA!

© 2010 ATWA Brasil

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~ por ATWA Brasil em 12/04/2010.

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